O DESENCARCERAMENTO DA MENTE ANTES DA LIBERTAÇÃO DOS CORPOS: A ATUAÇÃO DO INSTITUTO JURISTAS NEGRAS NA PROMOÇÃO DA RESSOCIALIZAÇÃO DE MULHERES PRESAS NO CONJUNTO PENAL FEMININO DE SALVADOR
2025 | Graduação
Camila Ferreira Paiva Fiuza Correia
A presente monografia analisa o encarceramento feminino no Brasil a partir das diretrizes
estabelecidas pela Lei de Execução Penal (LEP), com enfoque na realidade das mulheres
negras, principais vítimas da seletividade penal e da insuficiência estrutural do sistema
prisional. Considerando que a prisão brasileira foi historicamente organizada a partir de um
modelo masculino e universalista, demonstra-se que as previsões da LEP, relativas à dignidade,
assistência integral, saúde, educação, maternidade e reintegração social, permanecem, em
grande medida, distantes das condições efetivamente vivenciadas pelas mulheres privadas de
liberdade. A partir de uma perspectiva interseccional, compreende-se que raça, gênero e classe
não apenas compõem o perfil das mulheres encarceradas, mas estruturam, de forma
determinante, seus processos de criminalização, exclusão e silenciamento. Nesse cenário, o
estudo dedica atenção especial à atuação do Instituto Juristas Negras (IJN) no Conjunto Penal
Feminino de Salvador, organização que desenvolve práticas de acolhimento, fortalecimento
emocional e orientação crítica capazes de tensionar as lógicas punitivistas presentes no sistema
prisional. A atuação do IJN, ancorada em experiências e perspectivas de mulheres negras,
contribui para um processo denominado nesta pesquisa como “desencarceramento da mente”:
uma etapa subjetiva e política indispensável para a ressocialização, que envolve a reconstrução
da autoestima, da autonomia e do senso de pertencimento das mulheres encarceradas,
profundamente abalados pelas violências estruturais e institucionais. O trabalho utiliza revisão
bibliográfica, análise documental, dados oficiais e entrevistas com internas, egressas e
profissionais atuantes no projeto, permitindo compreender a complexidade da experiência
prisional feminina. Conclui-se que, embora o Estado falhe reiteradamente em cumprir as
garantias previstas na LEP, iniciativas comunitárias como o IJN demonstram que é possível
produzir fissuras no sistema, promovendo práticas de cuidado e reintegração que reconhecem
a dignidade das mulheres negras e afirmam seus direitos enquanto sujeitos históricos.
Palavras-chave: Encarceramento feminino. Lei de Execução Penal. Mulheres negras.
Interseccionalidade. Ressocialização. Direitos humanos. Instituto Juristas Negras.